Maio de 2004

Sempre soube, desde o dia em que tive minha primeira aula em Juilliard, que meu último ano aqui seria difícil. O que eu não imaginava é que não seria apenas difícil, mas sim uma verdadeira provação. Foram os doze meses mais longos da minha vida.

Em setembro de 2003, por recomendação da minha orientadora, havia começado a dar aulas de dança para as turmas preparatórias de Juilliard. Era uma forma de aumentar minha experiência e embora fosse muito bom poder treinar os aspirantes a alunos da academia, era extremamente desgastante. O pouco tem que tinha livre era reservado a elaborar coreografias e ensaiar as turmas.

No fim daquele ano tivemos uma grata surpresa. Ivo, o pai de Dario, apareceu em nossa casa pedindo perdão ao filho por tudo que havia feito e dito quando ele mais precisava do apoio dos pais e pedindo que ele estivesse presente na comemoração das bodas de prata dele e da esposa em Paris. Dario a principio ficou arredio, mas acabou cedendo. Ele nunca ia admitir, mas sentia muita falta dos pais e faltava muito pouco para que ele mesmo desse o braço a torcer e tentasse uma reconciliação.

Janeiro de 2004 foi o mês mais difícil. Como complemento do curso da academia de auror, do qual já haviam se formado, Micah e Shannon precisavam passar por um treinamento com duração de cinco meses na base de treinamento do FBI. O problema é que o treinamento era uma espécie de confinamento, eles não podiam sair da base em momento algum, e ficava em Quântico, na Virginia. Eu não queria que ele fosse, mas sabia que aquilo não era uma opção, então nos despedimos no dia 5 de janeiro daquele ano sabendo que só nos veríamos outra vez em maio.

Foram longos cinco meses. Sozinhos em Nova York e cada vez mais cansados da carga intensa de Juilliard, Georgia, Dario e eu nos vimos tendo uma crise de saudades de casa. Dario sentia cada vez mais falta de Paris e Georgia e eu choramingávamos quase todo dia por estarmos tão longe da família. Para amenizar um pouco a saudade, todos os dias tomávamos café em uma padaria francesa que tinha no bairro antes de ir para a academia e batíamos ponto em um pub búlgaro que descobrimos no Soho chamado Santa Sofia nos finais de semana.

Maio finalmente chegou ao fim e em uma manhã ensolarada de sábado, me encontrava sentada junto dos meus amigos nas cadeiras montadas em um gramado para assistirmos a cerimonia de formatura de Micah e Shannon em Virginia. Suas famílias estavam sentadas mais à frente e embora a avó de Micah tenha insistido que me sentasse com eles, preferi ficar na companhia dos amigos.

A cerimonia foi muito bonita e cheia de pompas. Todos os formandos estavam fardados e se mantiveram em posição de sentido durante todo o tempo, não importava o quão quente o dia estava. O sol batia no rosto deles, mas ninguém sequer piscava. Quando a cerimonia acabou, o Tenente que a conduzia os mandou “descansar” e todos abandonaram a postura rígida, agitando as boinas no ar. Eram todos oficialmente Agentes Probatórios do FBI.

Queria correr até Micah no instante em que ele pisou fora do palco com os outros alunos, mas me contive quando sua família quase o engoliu em abraços. Eles batiam em suas costas, bagunçavam seu cabelo e sua mãe e avó beijavam seu rosto orgulhosas, mas ele parecia desesperado para se livrar do abraço coletivo. Quando ele me encontrou na parte de trás do gramado, imediatamente começou a se desvencilhar dos parentes que buscavam sua atenção.

- Coiote, parabéns! – Ty deu um tapa tão forte em suas costas que achei que ele fosse cair no chão.
- Bonita cerimonia, mas estavam apostando que você ia secar o suor que estava escorrendo da sua testa – Milla completou rindo – Sem graça, fez todo mundo perder.
- Galera, também estou muito feliz em ver vocês e obrigado por terem vindo, mas depois conversamos, ok? – ele falou já me segurando pela cintura e me empurrando para longe do grupo.
- Sobramos, gente – ouvi Iago falar enquanto todo mundo ria – Vamos procurar uma sombra, isso vai demorar.
- Estava com saudades...
- Isso também pode esperar – Micah me interrompeu depressa e me beijou.

No instante que ele me beijou, achei que não ia conseguir me controlar e acabar fazendo alguma bobagem em publico. Cinco meses sem nem ao menos ouvir sua voz, não conseguia nem medir o tamanho da saudade que havia sentido dele. Quando interrompamos o beijo, ficamos em silêncio por um tempo com as testas juntas. Não precisava dizer nada, apenas poder tocar nele outra vez já era o suficiente.

- Prometo que nunca mais faço nenhum treinamento que me afaste de você por mais que uma semana – Micah finalmente falou e sua voz falhou. Ainda estávamos ofegantes.
- Acho bom, porque não sei se espero você por tanto tempo assim outra vez.
- Mentirosa, você vai sempre me esperar.
- Verdade. Ainda assim, uma semana é o limite.
- Combinado. Quer ir embora daqui?
- Por mais que queira ficar sozinha com você, não podemos fugir da comemoração. Nossos amigos entenderiam e até iam apoiar, mas sua família vai ficar chateada.
- Odeio quando a sua racionalidade estraga meus planos.
- Também amo você – disse rindo e ele me puxou para outro beijo intenso antes de voltarmos para perto dos outros.

Logo que deixamos a área da cerimonia fomos para o aeroporto. E como a comemoração seria na casa dos avós de Micah, o voo não era para NY, e sim para Boston. Foi uma comemoração longa. Não que não tenha sido divertida, principalmente porque todos os nossos amigos também estavam lá, mas eu não via a hora de ir para casa e ficar sozinha com Micah pela primeira vez em cinco meses, então não conseguia tirar os olhos do relógio. Foi Dario quem salvou o dia, levantando de repente perto das 22h e anunciando que ia embora. Georgia levantou também e Micah aproveitou a deixa.

- É, acho que vamos também, já está tarde – disse estendendo a mão na minha direção.
- Vocês vão pegar estrada essa hora? – a mãe dele se apressou em dizer – Não acho seguro, por que não passam a noite?
- Não vamos de carro, são menos de 400 km, podemos aparatar – Georgia explicou.
- Preciso descansar, gente. Não sei o que é uma noite completa de sono desde janeiro, estou com saudades da minha cama e não abro mão de dormir nela hoje.
- Dormir, sei... – a avó dele falou e a sala se dividiu entre gargalhadas e expressões chocadas.
- Mamãe! – a tia mais velha de Micah, Lauren, olhava para a mão horrorizada.
- Fiquei temporariamente surdo – Jonathan, o tio, declarou e agora todo mundo ria.
- Dormindo ou não, vamos embora – Micah disse rindo e virou para a nossa turma também já levantando para ir embora – Pessoal, a gente se vê de novo em uma semana em Orlando?
- Não seu imbecil, nos vemos segunda na formatura da galerinha de Juilliard, e depois vamos para Orlando – Ty respondeu delicado como sempre.
- Também estamos indo para NY, mas não se preocupe, estamos todos em um hotel – Annia se apressou em emendar – Ninguém vai atrapalhar vocês hoje.
- Ok, chega desse papo, já basta a mamãe! – Lauren exclamou do sofá – Vão embora logo!

Conseguimos deixar a casa dez minutos depois. Aparatamos todos no Brooklin, nos fundos da nossa casa, e dali cada um seguiu o seu caminho. Shannon já havia seguido para Los Angeles com a sua família e Chris depois da cerimonia, então eram somente Dario e Georgia em casa, mas eles não entraram com a gente.

- Não estávamos dispostos a ouvir demais, então nos demos ao luxo de reservar uma suíte no Ritz por uma noite – Dario sorriu – Aproveitem. E não destruam a casa.
- Bom, já que insistem em nos deixar sozinhos... – Micah abriu a porta e fez uma reverencia para eu passar.
- Espero que não esteja muito cansado – disse agarrando-o pelo colarinho e o beijando enquanto ele empurrava a porta com o pé.
- Pra isso? Nunca.

Ele me puxou pra cima dele e me pendurei em seu pescoço, enroscando minhas pernas em sua cintura e deixando que ele me carregasse até o quarto. Se todos saíram para nos dar privacidade, então faríamos bom proveito dela.

°°°°°°°°°°

Minha formatura em Juilliard aconteceu dois dias depois, em uma segunda-feira não muito bonita. O céu de Nova York estava muito cinza, mas sem sinal de chuva. Um típico dia na cidade. E assim como na de Micah, toda a minha família estava presente para ver Dario e eu recebendo nossos diplomas.

A comemoração foi no novo apartamento de Vivian, em Manhattan, que agora era grande o suficiente para acomodar toda aquela gente. A festa foi tão longa e divertida quanto a de Boston, mas dessa vez quem estava ansioso para ir embora era Micah. Ele passou a maior parte da tarde tentando se distrair com os planos para as próximas duas semanas, tentando organizar com Ty uma programação que não fosse cansativa demais para Jolie, que estava grávida de cinco meses, e nem para os gêmeos de Annia e John, que tinham dois anos, e os filhos de Milla que estavam com três e dois anos. Seria uma viagem light.

- Chegaram a um acordo? – perguntei quando ele veio me encontrar na varanda.
- Sim, temos uma programação. Foi muito difícil todos conseguirem conciliar essas duas semanas, tem que dar tudo certo.
- Vai dar tudo certo, relaxa – disse deslizando os braços em volta de sua cintura e o beijando – E mesmo que chova todos os dias e a gente acabe preso dentro do hotel, com esse grupo não tem como não se divertir.
- Isso é uma verdade. Falta muito para irmos embora?
- Micah, não posso abandonar minha própria festa. Aguentei até 22h na sua.
- Eu sei, é que estou ansioso para dar o seu presente de formatura. Está lá em casa – olhei para ele desconfiada e ele riu – Não isso.
- O que você comprou?
- Obvio que não vou dizer.
- Isso não é justo – disse emburrada e ele riu mais – Deixe-me ver que horas consigo sair.

Conseguimos fugir uma hora depois, mas também já passava das 20h e era uma segunda-feira, não era todo mundo que havia conseguido duas semanas de férias para estender mais a festa.  Georgia e Dario voltaram conosco dessa vez e como Shannon estava com Chris, Georgia estava temporariamente desabrigada e teria que dormir com Dario. Despedimo-nos ainda na entrada e cada um foi pro seu quarto.

Estava tão curiosa para saber o que Micah havia comprado que subi as escadas em uma velocidade acima do normal. Quando abri a porta e olhei para a cama, perdi a habilidade de respirar por alguns segundos. No meio dela estava uma caixinha de veludo em cima de uma almofada. A caixa estava aberta e tinha um anel dentro. Olhei para Micah sem saber o que dizer e ele pegou a caixa da cama, se ajoelhando na minha frente.

- Você me faz mais feliz do que eu jamais pensei que pudesse ser – disse pegando minha mão, que já estava tremendo – E se você deixar, prometo passar o resto da minha vida tentando fazer você se sentir do mesmo jeito.
- Você já me faz feliz.
- Casa comigo?
- Preciso mesmo responder isso?
- Gostaria de ouvir uma resposta.
- Sim, claro que sim – ele abriu um sorriso e levantou, colocando o anel em meu dedo – Quando você teve tempo pra isso? Desde que voltou não saiu do meu lado.
- Estou com ele no bolso desde dezembro. Logo que consegui acesso à poupança que minha avó deixou, aquela que eu só poderia mexer quando completasse 21 anos, percebi que finalmente tinha o suficiente para começar uma vida de verdade com você.
- Você não me contou essa parte. Disse apenas que era uma boa poupança.
- Eu sei, mas queria fazer tudo certo, então primeiro fui até seu avô e pedi sua permissão para casar com você. Conversei com ele antes de ir para Quântico, queria que ele soubesse que agora eu posso cuidar de você sem que ele se preocupe, que finalmente posso lhe dar tudo que você precisa. E que faria isso assim que nós dois nos formássemos.
- Eu já tenho tudo que preciso – segurei seu rosto e o beijei, encostando a testa na dele – Eu só preciso de você.
- E uma festa épica.
- É, uma festa não seria ruim.
- E uma casa grande, com um sótão onde Dario moraria até morrer.
- Ele vai morar conosco pra sempre, não é mesmo? – perguntei rindo.
- Provavelmente, mas isso é bom, assim teremos uma babá de graça.
- Babá para os nossos filhos, claro – ele assentiu – Quantos filhos vamos ter?
- Quatro – ele respondeu de imediato – Um menino, duas meninas gêmeas e outro menino.
- Isso é muito filho.
- Nós damos conta, já temos uma ótima babá. Claro que também vamos morar em uma rua tranquila, onde as crianças poderão brincar na rua sem nos preocuparmos.
- No Brooklin não tem como não se preocupar.
- Não, nós vamos ter que nos mudar para o subúrbio. Uma casa com quintal grande, assim nossos cachorros estabanados terão espaço para correr e podem parar de mastigar nossos móveis.
- Você pensou bastante nisso.
- Cinco meses com esse anel no bolso, meu amor. Tenho a nossa vida toda planejada. Viu como você precisa de mais coisas além do meu corpo?

Micah sorriu e me beijou, segurando firme em minha cintura e me erguendo do chão alguns centímetros. Sabia que mesmo depois de tudo que aconteceu para que chegássemos até aqui, era com ele que ele viveria o resto de minha vida. E seriam muito felizes. 

Meados de maio de 2013...

Iago e eu estávamos no Ministério, no departamento jurídico, e era o dia em que ele e eu terminaríamos com o nosso casamento.
Nossos amigos, tentaram em vão fazer com que parássemos o processo, mas era um esforço inútil. Ty, Micah, Annia, Evie, Vina e Nina estavam sempre em contato comigo e acredito que com Iago também, mas conforme expliquei a eles: não se pode manter um casamento se não existir confiança. E eles não me falaram, mas suspeitava que Iago não negava a nenhum deles, que não confiava em mim.
Os tramites legais, ficaram prontos, após o domingo de Páscoa, e eu havia pedido que Greg tivesse uma dispensa da escola pois precisava fazer exames para ver a evolução do transplante, então ele estava em casa junto com Ivan.Eu havia contratado uma advogada com fama de durona, do escritório onde Mary Mckellen trabalhava e havia rejeitado o acordo que Iago havia mandado. Eu podia estar sendo orgulhosa, mas era assim que as coisas seriam.
- Então senhor Karkaroff, está de acordo com as exigências de minha cliente?- perguntou a minha advogada para Iago.
Ele me encarava e ignorou os papeis. O advogado dele pegou a papelada e após dar uma olhada, exclamou pasmo:
- A senhora Karkaroff abre mão da pensão pessoal? E da mansão?Exige apenas visitas semanais aos garotos e uma ajuda de custo para os estudos deles...A senhora abre mão de todos os bens? Inclusive do sobrenome do meu cliente? - assenti e peguei os papéis e fui a primeira a assinar. Iago fez o mesmo.
- Bem, acho que concluímos...- Iago cochichou algo e o advogado disse:
- Meu cliente gostaria de conversar com a senhora... Kovac, a sós...
- Qualquer pergunta para a minha cliente, eu posso responder. – disse a minha advogada, mas coloquei minha mão em cima do braço dela e ela entendeu que eu falaria com Iago. A contragosto, ela e o advogado dele saíram da sala. A porta mal se fechou e Iago se virou para mim.
- Porque você está fazendo isso? Quer que eles passem necessidade e eu me sinta culpado?E esta criança que está vindo?Isso é jogar sujo.
- Não preciso do seu dinheiro, trabalho e posso manter uma casa para viver com meus filhos. Só estou pedindo que você banque os estudos dos meninos, porque minha advogada entendia que era a sua obrigação e me convenceu, porque se fosse de minha vontade, nem isso eu pediria. E quanto à minha filha...(vi que os olhos dele brilharam quando eu disse o sexo da criança) mas continuei:
- Minha filha terá tudo o que precisar...
- Claro, Luka vai cuidar de tudo não é?- ele disse tenso e, respirei fundo antes de responder, enquanto colocava a mão sobre a minha barriga que já estava aparecendo:
- Posso não ter sido capaz de cuidar das coisas, há alguns anos atrás, mas agora eu sou. Meus filhos terão uma vida simples, mas de qualidade, sempre foi assim quando éramos casados,isso não mudará. Acho que se você deve se lembrar que eu nunca fui do tipo deslumbrada com dinheiro, então ele não me fará falta. Quando eu me mudar, minha advogada entrará em contato com você, para que você possa fazer suas visitas, prometo não estar presente para não constrange-lo.
- Quando você e Luka vão oficializar? Depois do nascimento da criança?- ele perguntou sarcástico e eu tive que engolir o bolo que se formou na minha garganta, para responder:
- Faço o que quiser de minha vida, assim como você tem feito da sua, pelo menos é isso que tem aparecido nos jornais, não é?- e vi que ele ficou embaraçado. Coloquei a mão na maçaneta e ele disse:
- Lud...er...Ludmilla! - só de ouvir ele dizer o meu nome, eu queria me atirar nos braços dele, mas me forcei a me manter séria quando me virei pra ele e perguntei:
- Sim?- ele me olhou de cima a baixo e parou por alguns segundos na minha barriga e disse rouco:
- Cuide-se.- e eu respondi de volta:
- Você também.
Comecei a sair, mas voltei e tirei o jogo de anéis que Iago havia me dado quando nos casamos e os coloquei em cima da mesa, sai da sala e fui embora do Ministério com a minha advogada, que estava repetindo as mesmas coisas que Evie, Annia, Vina e Nina tinham dito: que eu deveria tirar até as calças de Iago neste divórcio, como compensação por tudo e eu me fazia de surda.
Tudo o que eu queria era que ele dissesse que me conhecia o bastante e que confiava em mim e que nossa família ficaria junta.Mas isso seria pedir demais, ele havia me magoado muito, e eu não sei se algum dia seria capaz de perdoá-lo, mesmo que eu nunca deixe de ama-lo.

- Olha o que você fez, Ivan! Este jogo foi papai quem me deu, ele vai ficar chateado porque quebrou....- Greg disse e Ivan parou e perguntou:
- O que você disse?
- Que papai me deu os jogos e...- Greg não terminou a frase porque Ivan pulou nele e começaram a trocar socos.
Greg era o mais velho, mas Ivan tinha o mesmo tamanho e era tão forte quanto o irmão, e sabia brigar como ninguém.Se afastaram cansados:
- Porque você fez isso? Pirou?- Greg perguntou gritando e Ivan respondeu no mesmo tom.
- Como você ousa chamar aquele cara de papai?- e limpou a boca na manga da camisa.
- Porque ele é meu pai, oras.
- Não, ele não é. Você é tão estúpido...
- Eu sou o estupido? Você que me bateu, babaca.
- A nossa família está acabando e tudo o que te preocupa é aquele babaca do Luka.
- Como você é bebezão, Ivan.Mamãe e ‘Iago’ apenas se desentenderam como aconteceu antes, tudo vai ficar bem.
- Não vai não. Eles foram assinar os papéis do divórcio e tudo por culpa do Luka.. Você é tão cego que pensa que ele tem vindo aqui por sua causa, mas não é, seu besta. Ele vem por causa da nossa mãe. Eu ouvi tia Annia dizendo pra mamãe...
- Tia Annia não gosta do Luka, ele me avisou. E você só está com inveja, porque o meu pai me dá tudo o que eu quero.- e Ivan olhou de forma dura pro irmão:
- Não, eu não tenho inveja de você, eu tenho vergonha Greg. Porque você se vendeu por uns jogos de vídeo game e não dá a minima para a nossa família. Esqueceu de todas as vezes que o nosso pai, Iago, esteve junto com a gente. Da vez que ele ajudou você a curar a asa daquele passarinho que caiu no nosso quintal....e dos bolinhos azuis que mamãe fazia quando era para irmos ver os jogos de quadribol. Agora, desde que o nosso pai foi embora, você viu mamãe assar alguma coisa? Já parou e olhou o quanto ela se esforça para que tudo pareça estar normal para nós?
- Se eles se separarem, talvez...mamãe queira morar com o Luka e ai...
- Você não entende mesmo as coisas não é Greg? Nossa mãe ama o nosso pai, e ela tem chorado todo dia quando acha que eu estou dormindo. E com o bebê a caminho...
- Então nossos pais não vão se separar, tem o bebê...
- Por Odin, como você é idiota.- e trocaram mais alguns empurrões, e Ivan disse:
- Nosso pai acha que o bebê que a mamãe espera não é dele.
- O quê? Ele não ousaria, nossa mãe é honesta...
- Sim, ela é, mas o seu querido ‘pai’ andou dizendo por ai que eles estão juntos....
- Você está mentindo...Luka nunca faria algo para ofender a nossa mãe, ele sabe que isso me deixaria chateado.
- Estou? Então veja por este ângulo: - Você já notou que Luka sempre te procura quando nossa mãe está por perto? Por exemplo hoje estamos aqui sozinhos e ele não apareceu ainda, porque?
- Ah ele deve ter coisas para fazer...Ele é um empresário.
- Greg eu sempre te achei o mais esperto de nós dois, mas vejo que você é um avestruz...- trocaram mais alguns empurrões e ambos caíram no chão suados e cansados.
- Eu acho que você está errado Ivan. Luka é um cara legal e se ele gosta da mamãe...Podemos ser uma família...
- Não, não seremos porque você não vai mais ser o meu irmão, Gregory. Não vou deixar meu pai, para ficar com o seu, será o fim.
- Nossa, como você é dramático. Não se deixa de ser irmão assim...
- Não? Você tá deixando de lado todo o amor é carinho do nosso pai, por alguém que chegou agora, porque não posso fazer o mesmo?
- Eu vou te provar que você esta errado...- e começou a trocar de roupas .
- Aonde você vai?
- Vou falar com o Luka, tirar isso a limpo.
- Você não pode sair sozinho, sem avisar a mamãe...
- Se você vier comigo, eu não estarei sozinho...A menos que você tenha medo, filhinho da mamãe...- provocou Greg e Ivan só olhou e respondeu:
- Vamos logo resolver isso.


Os dois saíram e como Greg sabia como chegar á casa de Luka por um caminho mais curto, afinal a área onde moravam abrigava a casa de vários bruxos e por ser uma área repleta de magia, as distancias entre elas eram menores. Não demorou muito tempo e os dois irmãos chegaram aos limites da propriedade Ivanov. Greg e Ivan, entraram pelos fundos, e após serem cumprimentados pelos elfos, se encaminharam para a biblioteca onde geralmente Luka estava, ao chegarem perto, ouviram Luka conversando com um amigo e antes que se apresentassem, Greg ouviu algo que o fez congelar onde estava:
- E agora que o divórcio dela está saindo, o que você vai fazer?E não me diga, que quer constituir família  porque eu o conheço, Luka. Você não evoluiu tanto assim...Deixa a família da Milla em paz, quem sabe ela possa se acertar com o marido. - disse o homem e os garotos reconheceram a voz como sendo de Max Parvanov, irmão de sua tia Evie, e Luka logo respondeu:
- Tudo o que eu quero é ter a Milla de volta, mas não tenho intenção de conviver com os pirralhos...Eles são uns chatos.
- Mas você salvou a vida do Greg, isso não conta?Pelo seu desespero pensei que gostasse do menino.
- Desculpe, Max mas não sou do tipo paternal, graças a Odin, Greg já esta em Durmstrang, e o outro deve ir para lá logo, então os verei apenas nas férias e quanto ao bebê...Será um inconveniente, mas existem babás para isso. Não nasci para perder noites de sono, com remelentos chorões...Fico pasmo por você conseguir...
- É porque você nunca amou ninguém de verdade...O que é uma pena...Minha família...-
- e os garotos deixaram de ouvir quando Ivan, percebendo o quanto Greg estava abalado com o que descobrira, pegou na mão do irmão e o tirou dali o mais silenciosamente que pode. Voltaram para casa e quando Ivan tentou dizer alguma coisa, Greg disse:
- Não conte a mamãe que saímos...Ela não pode ficar nervosa.
- Greg, eu sinto muito, não pensei que fosse tão ruim...- disse Ivan.
- Eu quero ficar sozinho...- e entrou no quarto e se trancou, deixando um preocupado Ivan, sem saber o que fazer.

Continua...

13:57 Postado por Anônimo 0 comentários
Depois que deixei Greg e Elena na escola, voltei para casa determinada a ter um novo recomeço com Iago. Eu o amava, porque iria ficar brigando com ele? O importante era estarmos juntos e enfrentar os problemas um de cada vez e tudo daria certo. Depois que Ivan foi para a cama, encontrei meu marido na biblioteca e me aproximei de sua cadeira e o abracei. O senti tenso, mas achei que ele estivesse um pouco assustado com as minhas ações e sussurrei em sua orelha, do jeito que fazia ele ignorar as coisas e me seguir:
- Venha logo para o nosso quarto, temos muito o que...conversar...- e ele respondeu:
- Preciso resolver umas coisas aqui e já vou.- fiquei um pouco desapontada, mas talvez ele precisasse de carinho em dobro para me desculpar pelo distanciamento. Dei-lhe um beijo leve e fui para nosso quarto e devo ter esperado por muito tempo, porque não o vi entrar.

No dia seguinte, ele já havia saído e eu estranhei ele não haver me chamado. Devia ter ido correr, ele sempre fazia isso para ajudar a se manter em forma. Levantei-me e fui fazer o café da manhã e comentei com meu filho Ivan:
- Hoje quando seu pai voltar, ele pode te pegar na escola nós podemos jantar fora, o que acha?- mas meu filho respondeu após terminar de mastigar seu cereal:
- Papai não volta mais hoje, ele vai encontrar o tio Riven na Escócia e vão pescar, ele só volta no final da semana que vem, ele não te falou?
- Er..humm, Claro que falou, que cabeça a minha...Venha, vamos para a escola e então de noite, eu vou jantar com o garoto mais bonito desta cidade.- e meu filho riu dizendo:
- Não fala assim, mãe, meus amigos vão me zoar se escutarem que sou bonito blergh! – ri.
E enquanto o levava para a escola, eu ficava pensando na atitude de Iago. Será que ele estava tão chateado assim comigo? Mas nem quando brigávamos, um saía de casa sem falar com o outro...O que será que estava acontecendo?

Uma semana depois

You're everything I thought you never were
And nothing like I thought you could have been
But still, you live inside of me, so tell me how is that?
You're the only one I wish I could forget
The only one I love to not forgive
And though you break my heart, you're the only one


Era sexta de manhã, e eu me arrastei para sair da cama. O mundo girava e meu estômago, enjoava até com o ar que eu respirava. Minha náusea só melhorou depois que tomei uma xicara de chá de gengibre com mel. Como havia um surto de gripe no meu departamento, optei por fazer uma consulta, e descobrir se eu também teria que me licenciar. Fui até o St. Alborguetti e pedi para chamar Vina. Não demorou muito tempo e ela logo veio me atender.
- Hey, o que foi que houve? O Greg??- perguntou preocupada e eu a tranquilizei:
- Não, está tudo bem com ele. Eu estou me sentindo mal, como se estivesse gripada, e não quero contagiar o resto dos meus funcionários. Já perdi dois esta semana, não posso perder mais nenhum, então você pode me passar alguma coisa? – disse enquanto entrávamos em seu consultorio. Logo Vina me examinava, e ia fazendo anotações em sua prncheta muito séria. Ao final dos exames, ela me ajudou a sentar e como ela não falasse nada, brinquei:
- Vai Doutora, diz logo quanto tempo de vida ainda me resta?
- Cerca de sete meses, depois disso, você não vai conseguir ter oito horas de sono direto, por um bom tempo, parabéns mamãe. Imagino que você esteja com quase cinco semanas.
- Sério? Estou grávida? – e quando ela fez que sim começamos a gritar eufóricas na sala dela e uma enfermeira até veio ver se estava tudo bem.
Após os gritos de alegria, Vina aproveitou para colher sangue para outros exames, me explicou que o fato de estar sob forte stress durante o transplante do Greg, me fez não perceber os sintomas, mas que estava tudo bem fisicamente comigo e com o bebê.
Voltei para casa radiante, com minhas vitaminas, e a recomendação de me alimentar bem e tomar chá de gengibre para o enjôo. Mas eu estava tão feliz que as náuseas passaram e estava me sentindo faminta. Esta noite Iago voltaria para casa, faríamos as pazes e para coroar nossa felicidade, eu contaria sobre o bebê. Seria a cereja do bolo que eu faria para comemorar.
Iago voltou e eu o recebi com um abraço e um beijo cheio de promessas e embora ele se mantivesse distante, eu estava alegre. Ivan sem saber compartilhava do meu entusiasmo e ao final da noite, Iago já estava rindo e brincando conosco, como sempre fazia.
Depois que Ivan foi para a cama, Iago e eu fomos para nosso quarto e mal fechei a porta, ele me agarrou e começamos a nos beijar, e a tirar nossas roupas de forma apressada, e entre um beijo e outro me agarrei ao fio de lucidez que me restava e disse:
- Nós vamos ter um bebê, Iago.- e ele estacou. Me afastou e perguntou olhando para minha barriga:
- Quem é o pai?
- Como assim quem é o pai? Óbvio que é seu, que pergunta boba...- tentei rir mas ele me respondeu de forma fria:
- Não tenho tanta certeza, Ludmilla. Eu vi o jeito que você e Luka se agarravam no jardim de inverno, e com os garotos na sala.
- Luka me agarrou à força e...
- Ah claro, a velha historia...só falta ele ter feito você beber alguma poção do amor novamente e você não sabia o que fazia.
- Iago, ele me agarrou, mas eu o rechacei, não há nada entre nós e nunca haverá. Ele estava comigo no jardim de inverno porque eu não queria discutir com ele na frente dos nossos filhos e assusta-los... - disse ignorando a dor que suas palavras me causavam.
- E estavam discutindo o quê? Como fariam para me tirar do caminho, agora que haviam se reencontrado? Porque eu sei que vocês estão juntos há tempos, sei dos presentes, das flores, as visitas dele ao Ministério e sua frieza comigo...Vocês não foram discretos e todos estão falando disso. E desta vez eu não estou disposto a dar meu nome ao bas...
SPLESH!
Foi o som da bofetada que dei nele e foi tão forte, que jogou seu rosto para trás. Ele voltou a me olhar e o seu rosto estava ficando avermelhado. Eu estava sentindo muita raiva e disse entredentes:
- Nunca se atreva a usar esta palavra, quando o assunto for os meus filhos. Eu sabia que em algum momento você jogaria o nascimento de Greg na minha cara. Você só o aceitou porque me queria, e eu sempre senti que meu amor nunca seria o bastante para compensar tudo o que você fez por mim, e este tempo você fingiu que era um pai orgulhoso. Eu secretamente desejava que Greg fosse seu de verdade...Como eu fui idiota!
- Eu amo o Greg, ele é meu filho, não distorça meus sentimentos por ele...
- Não Iago, ele não é. Talvez nem o Ivan seja...- e o vi estreitar os olhos e dizer tenso:
- Greg e Ivan SÃO meus filhos...- ele disse enfático e eu provoquei:
- São? Como você pode ter tanta certeza?– e como ele me olhasse irritado, eu disse:
- Não vou mais discutir com você, estou cansada. Amanhã eu e meu filho vamos embora e quando Greg voltar da escola já estremos instalados...
- Não! Eu saio! Esta casa é dos meus filhos e você deve ficar com eles, pelo menos por enquanto, até Luka a levar para a casa dele...- e olhei para ele e me vi fazendo um pedido enquanto forçava as palavras a sairem:
- Espero que os seus sentimentos a meu respeito, não afete o seu relacionamento com os garotos, eles o amam. Amanhã, peço para um advogado te procurar. - e Iago perguntou:
- Então você assume o seu caso com o Luka?
- O que te interessa? Você já tem a sua verdade e se convenceu dela. Nada do que eu disser vai mudar isso...
Ele saiu do quarto e enquanto eu me sentava na cama e abraçava meus joelhos, pude ouvir ele batendo com força a porta de entrada. Me dei conta de que meu casamento estava acabado e só então as lágrimas começaram a rolar livremente pelo meu rosto.

And though there are times when I hate you
‘Cause I can't erase
The times that you hurt me and put tears on my face
And even now, while I hate you, it pains me to say
I know I'll be there at the end of the day
I know that I love you, but let me just say
I don't wanna love you in no kind of way, no no
I don't want a broken heart
I don't wanna play the broken-hearted girl


Nota da autora: Música utilizada: Broken-hearted Girl, Beyoncé

13:52 Postado por Evie/Micah 2 comentários
Dezembro de 2002

O dia de recrutar os garotos no reformatório havia chegado e depois de quase uma hora explicando o projeto a dois deles, eles estavam dispostos a participar. Seus nomes eram Michael Sullivan e Walter Ferguson, de 15 anos. Ambos tinham um extenso histórico de fugas e semanas de penitencia na solitária, mas a perspectiva de passar algumas horas longe daquela prisão parecia ter sido o maior incentivo para a cooperação. Faltava apenas um garoto, o mais complicado dos três. Thomas Marcano, um descendente de italiano sem pai nem mãe, campeão de fugas de Sunny Vale e conhecido por estar sempre desafiando os guardas e começando as brigas entre os detentos.

Aquele garoto tinha tudo para não colaborar, mas era quem eu mais queria no projeto. O guarda me autorizou a falar a sós com ele e me levou até a cela da solitária onde ele estava confinado, depois de ter aberto um corte enorme na cabeça de um garoto com a bandeja do almoço. Quando entrei no cubículo tão familiar, o garoto estava deitado no chão, os pés apoiados na parede e sequer se moveu para olhar quem tinha entrado. Tive que me esforçar para não rir, pois me reconheci de imediato.

Se for outro assistente tentando me fazer entrar pro grupo idiota de terapia, pode ir embora que já disse que não estou interessado – Thomas disse sem desviar os olhos da parede suja.
- Não sou assistente social e não entendo nada de terapia de grupo. Sou auror.
- Ah, o tal auror que quer nos ensinar boas maneiras – ele falou com deboche e o guarda reagiu incomodado, mas fiz sinal de que estava tudo bem – Não estou interessado também.
- Não queremos ensinar boas maneiras a ninguém, você já tão gentil, não precisa disso.
- Auror com senso de humor, gostei – ele me encarou pela primeira vez, mas ainda tinha uma expressão desinteressada – Mesmo assim, não, obrigado.
- Você se acha um valentão, não é? – disse no mesmo tom de deboche dele – Fica aqui na solitária, resistindo, e a cada vez que volta ganha mais respeito dos outros garotos. Sei como é sentir esse poder.
- Ah qual é, agora vai querer bancar o que acha que sabe como é viver aqui? Esse papo não cola, porque vocês não sabem de nada.
- É ai que você se engana. Já estive exatamente onde você está, deitado num chão como esse, cheio de atitude, fingindo que não estava nem ai pra nada, mas a verdade era que tudo que mais queria era sair sem precisar fugir e não ter que voltar mais. Fui amparado por pessoas que se importavam comigo quando sai e nunca mais voltei.
- Bom, é aí que vemos a diferença. Eu não tenho quem me ampare, estou preso nesse buraco até completar 18 anos.
- Então por que não levanta a bunda desse chão e vem conosco? Se conseguir se sair bem no projeto, não precisará ficar aqui até os 18 anos. Vai sair tendo para onde ir, e uma vaga garantida na Academia. Mas se prefere passar mais 3 anos aqui embaixo...

Virei de costas e já fazia menção de sair quando Thomas levantou, batendo a sujeira da roupa. Olhei para ele outra vez e ele me encarou de cima a baixo, ainda desconfiado, depois lançou um olhar para o guarda que o observava atento e estendeu a mão.

- Ok auror, o que tenho que fazer pra sair daqui?

ººººº

- Ei Mike, vigilância constante!

Um raio azul cortou a sala e ricocheteou na parede quando Mike Sullivan abaixou a tempo de desviar do feitiço lançado por Thomas. Shannon cruzou a sala invocada e tomou a varinha de sua mão, lhe lançando um olhar de censura. Thomas apenas riu e deu de ombros, enquanto Walter ria vendo Mike no chão.

- Outra gracinha dessas e vai ser o único a continuar com a varinha confiscada, Tommy – avisei me juntando a ela no centro da sala – Isso aqui não é brincadeira. Se não forem levar o programa a sério, tem um monte de outros garotos que querem estar aqui no lugar de vocês.
- Não, vamos levar a sério! – Walter se alarmou e deu um soco no braço de Thomas – Ele não vai mais fazer isso.
- Ótimo. Vocês lembram as condições para continuar, não é? – Rachel perguntou – Suas notas terão que melhorar, uma abaixo de A e estão cortados. E também sem mais brigas. Se passassem menos tempo envolvidos em confusões no refeitório, teriam mais tempo para estudar.
- Estudar é um saco – Mike parou ao lado de Walter ajeitando os cabelos. Ele era menor que os outros dois e mais franzino, mas não menos encrenqueiro – É uma perda de tempo. Somos bruxos, podemos ter o que quisermos nas mãos.
- Ah é isso que você acha mesmo? – Eric o agarrou pela camisa e os outros dois se assustaram. Mike o encarou e confirmou – Vem até aqui.

Eric arrastou Mike até o corredor e o seguimos, até que pararam em frente a um enorme quadro que ficava no hall de entrada. Era um mosaico dos maiores aurores do mundo bruxo e suas conquistas. Ele ia apontando para os nomes dos aurores e perguntando quem eram e, curiosamente, Mike soube responder todos. Eric então começou a apontar os nomes dos bruxos das trevas capturados por aqueles aurores e ele não reconheceu nenhum nome, exceto Voldemort.

- Sabe por que você não reconhece nenhum desses nomes? – Mike não respondeu – Porque eles não são ninguém! Eram como você, pensavam que tinham o mundo nas mãos por serem bruxos. E agora estão todos mortos.
- Ok, chega – me aproximei e afastei Mike de Eric, vendo o garoto começar a se assustar de verdade – Já entendeu a mensagem, não é? – e ele assentiu, sem tirar os olhos arregalados de Eric – Vamos voltar pra sala.

Os três nos seguiram de volta pelo corredor e passaram o resto da aula do dia sem dizer quase nada. Acho que Eric tinha conseguido o que queria.

ººººº

Março de 2003

O começo do programa foi difícil, éramos quatro futuros aurores tentando dominar três adolescentes rebeldes e sem medo de nada nem ninguém, mas com o passar do tempo os garotos foram entrando na linha. Foram muitos gritos, estresses, punições e vez ou outra brigas violentas entre eles, mas agora os três já nos obedeciam sem que precisássemos apartá-los das brigas com um feitiço. Dos três, Mike era o mais esforçado. Por ser o mais franzino, estava sempre tentando superar os colegas. E era também o que mais esperava ter um lugar para onde ir que não fosse sua própria casa, não queria voltar para as mãos dos pais viciados.

O treinamento era básico, mas estava funcionando. Eles tinham um programa de treinamento físico quase militar, que servia para ensiná-los disciplina, e aula de duelos todos os dias. Dávamos a eles a oportunidade de praticar os feitiços que aprendiam nas aulas, mas que eram apenas teóricas, e ensinávamos alguns outros. E duas vezes por semana eles tinham aulas básicas das matérias da Academia, como rastreamento, vigilância e esconderijo. Hoje seria o dia da nossa segunda avaliação do desempenho deles, na primeira todos conseguiram elevar as notas para A, mas não passavam disso. Quando chegamos à sala os três já estavam lá, debruçados em cima da mesa, tão concentrados que sequer nos ouviram. Shannon me cutucou com um sorriso no rosto, apontando o que estava prendendo a concentração deles: livros de magia.

- Ei meninos, o que estão lendo? – Rachel perguntou sentando ao lado de Walter.
- Esse feitiço do patrono... – Walter falou apontando a ilustração no livro – Vamos aprender? Vocês vão nos ensinar, não é?
- É, podemos pensar no caso de vocês, se mostrarem que merecem – Eric falou e na mesma hora Mike saltou do banco com uma pasta na mão, me entregando.
- Podem começar a nos ensinar – ele disse presunçoso e abri a pasta. Eram os relatórios de notas dos três, e não havia nenhuma abaixo de EE.
- É isso ai, seus pivetes – Eric estendeu a mão e os três bateram – Acho que isso pede um feitiço Patrono. Vamos pro tatame!
- O feitiço não é nenhum bicho de sete cabeças, é apenas um feitiço que requer concentração para ser executado – Shannon começou a explicar e os três apertavam as varinhas nas mãos, ansiosos – Para conjurar um Patrono, vocês precisam ter em mente uma lembrança feliz.
- Um Patrono é um tipo de energia positiva, uma projeção do que o dementador se alimenta: esperança, felicidade ou desejo de sobrevivência. E por ser apenas uma projeção, o dementador não pode tirar isso dele, por isso não pode afetá-lo – expliquei quando eles não pareciam entender o motivo de precisarem de uma lembrança feliz – Por isso o feitiço não funciona a menos que você esteja concentrando todas as suas forças em uma lembrança feliz.
- Vamos praticar primeiro, então mantenham as varinhas pata baixo e repitam comigo – Rachel ordenou e eles obedeceram – Expecto Patronum!

Rachel fez os garotos repetirem o encantamento durante muito tempo, até que todos os três estivessem usando a pronuncia correta, mas antes de deixar que tentassem executá-lo, pediu que gastassem alguns minutos procurando pela lembrança feliz que os ajudaria. Usando legilimência pude ver Mike concentrado em uma festa de aniversário com ele ainda pequeno, abraçado a uma senhora que pelas feições só poderia ser sua avó. Walt sorria, mentalizando a imagem de um parque, com sua versão de aproximadamente 10 anos brincando de futebol americano com um homem ruivo igual a ele, seu pai. Ambos pareciam ter escolhido sua memória, mas não conseguia ver nada na mente de Tommy. Era impossível que ele soubesse oclumência, mas antes que pudesse forçar alguma coisa, Shannon os trouxe de volta a realidade, autorizando que começassem a praticar o feitiço.

- Isso Walter! – Shannon o incentivou com entusiasmo ao ver uma luz prateada se iluminar na ponta de sua varinha – Está quase lá, se concentre mais e vai conseguir!
- Boa, Wally! Está quase tomando forma! – Mike acabou se desconcentrando ao ver que a luz prateada de Walt formava uma fumaça borrada e a sua se apagou – Ah, droga. Desculpe, me animei demais. Expecto Patronum!
- Ai! – ouvi Tommy gritar de dor e soltar a varinha no chão, levando a mão ao pulso imediatamente – Acho que torci o pulso.
- Venha até aqui, vou dar uma olhada – e Rachel o guiou para fora do tatame.

Continuei monitorando Walter e Mike, que progrediam lentamente, mas sem tirar os olhos de Tommy. Rachel analisou seu pulso e parecia não ter encontrado nada, mas ele dizia que estava doendo e não voltou para o exercício. Deixei que apenas observasse por quase meia hora, até que fui até ele.

- Machucou o pulso, então? – perguntei vendo-o apertá-lo com uma força exagerada. Ele fez que sim com a cabeça, sem me encarar – Por que não diz qual é o problema de verdade? Mentindo não posso ajudar.
- Não posso conjurar um patrono – ele disse em voz baixa, depois de algum tempo em silêncio.
- Como não? Claro que pode, é só se concentrar e se dedicar que vai conseguir. Você é ótimo com feitiços, Tommy.
- Mas eu não tenho nenhuma lembrança feliz! – ele explodiu de repente, mas a agitação na sala não fez ninguém ouvi-lo. Ele diminuiu a voz outra vez – Não posso conjurar um patrono porque não tenho nada feliz em que me concentrar.
- Você não se lembra de nada da sua infância que possa ajudar? Mike está usando uma lembrança de quando tinha menos de 6 anos.
- Hum, deixe-me ver o que posso usar... – Tommy fez uma cara debochada, como se estivesse se esforçando para lembrar as coisas – Até meus 5 anos todas as minhas lembranças são de estar sozinho em casa, enquanto meus pais trabalhavam fora ou sei lá o que faziam o dia todo na rua. Depois que eles desapareceram, morei nas ruas e tentava sobreviver todo dia, então não, acho que não vou conseguir usar nada.
- O que aconteceu com seus pais?
- Eles me deixavam sozinho todos os dias, trabalhavam fora, eu acho – ele deu de ombros – Às vezes esqueciam de deixar comida, mas sempre voltavam. Só que um dia não voltaram mais. Não sei se morreram ou foram embora e me deixaram pra trás, mas lembro que fiquei aliviado no dia que não voltaram, sabia que poderia sair pra procurar o que comer sem ser punido depois.
- Sinto muito por isso, mas se quiser, podemos tentar localizar seus pais. Se você é bruxo, é muito provável que eles também sejam e assim fica mais fácil.
- Obrigado, mas não – me espantei e ele me encarou firme – Se você localizá-los e me disser que estão mortos, vai doer. Mas se encontrá-los e disser que estão vivos, vai doer ainda mais.
- Entendi. Mas não quero que desista de praticar o feitiço, porque você não está mais sozinho no mundo, tem a todos nós e daqui pra frente terá muitas lembranças felizes. Tenha um pouco de paciência e vai ver que dará certo. Promete que não vai desistir? – ele assentiu com a cabeça e sorriu – Então levanta desse banco e vá se juntar aos seus amigos.

Tommy girou a varinha entre os dedos como costumava fazer e se juntou aos outros dois no tatame. Ele se esforçou durante um bom tempo, até que de repente uma luz prateada saiu da ponta de sua varinha, ainda que fraca. Ele logo se animou e passou a se empenhar ainda mais, enquanto eu me concentrava em ver o que ele estava vendo. E a imagem que vi em sua memória não poderia ter me dado mais certeza de que estávamos fazendo a coisa certa: Tommy tinha em mente exatamente aquele momento, em que estava cercado por pessoas que gostavam dele e queriam seu bem. Agora mais do que nunca sabia que aquele era um caminho que eu queria continuar seguindo.

13:50 Postado por Anônimo 0 comentários
Depois que trouxe Greg de volta para casa, o coloquei de castigo por haver fugido de casa, e eu estava tão irritada que acabei puxando suas orelhas quando ele tentou me responder de forma mal educada. Depois é lógico que me arrependi, mas não ia voltar atrás e meu filho achar que havia vencido.
Iago quando voltou para casa, tentou conversar com ele, afinal era o conciliador, mas Greg o olhava com tanta raiva e não facilitava, vi Iago passando a mãos pelos cabelos exasperado e aumentou o castigo dele.
Estava muito difícil aguentar a tal fase, estávamos muito estressados, eu especialmente, porque Luka ficava me enviando flores no trabalho, que assim que eu recebia as jogava no lixo, não abria nem mesmo os bilhetes. Embora o pessoal no trabalho não falasse nada abertamente, sabia que havia comentários, porém eu os ignorava, achava que em algum momento Luka pararia de me incomodar.
Após a virada do ano, fui chamada com urgência no Ministério, pois um rabo córneo húngaro havia fugido da reserva onde meu irmão trabalhava e o pior: tinha sido avistado por trouxas, enquanto devorava alguns carneiros.
Estávamos em alerta total, então eu como chefe do departamento de regulamentação de criaturas mágicas, tinha que controlar os danos causados, o mais rápido possivel. Iago estava fora, então meus filhos e minha sobrinha Elena ficaram em minha casa, afinal no dia seguinte seria a volta para Durmstrang.
Quando voltei, o dia ja estava amanhecendo, e embora cansada não me sentia capaz de comer nada, só de pensar em comida, meu estômago revirava, sentia-me enjoada. Encontrei os garotos na sala jogando um vídeo game e junto deles esparramado no chão, estava o Luka.
- O que você faz aqui?- perguntei ríspida, enquanto olhava aos vários tipos de jogos de vídeo game espalhados pela sala, minha sobrinha Elena estava sentada no canto, lendo um livro, enquanto Greg e Ivan disputavam uma partida animada:
- Oi mãe, olha só o que eu ganhei do Luka, não é irado?
- Onde está o seu pai?- perguntei olhando feio para o Luka e Ivan disse enquanto enfrentava o irmão:
- Papai ainda não chegou, está atrasado. Morra necromancer!!!
- Greg e Elena, espero que a mala de vocês estejam prontas, daqui algumas horas vão voltar para a escola, consegui uma chave de portal para leva-los. – e após minha sobrinha garantir que estava tudo pronto, olhei para Luka e disse:
- Luka, quero conversar com você, em particular. - ele se levantou e veio em minha direção. Trinquei os dentes quando o vi bagunçar os cabelos dos meus meninos, com a familiaridade de quem é aceito por eles.
Ele me seguiu até o jardim de inverno que tenho em casa e quando entramos eu fechei as portas de vidro, não queria que as crianças nos ouvissem.
- O que você pensa que está fazendo?
- Vim trazer os presentes de Natal atrasados do meu filho...
- Não, você está tentando subornar o Greg para que ele ache você um cara incrível e queira conviver com você. Isso é jogo sujo.E eu disse que iriamos conversar a respeito desta tal convivência...
- Você não respondeu nenhum dos meus bilhetes. Você está enrolando porque quer me privar da convivência com o meu filho. Eu quero compensa-lo por ter estado longe, e como ele me disse que gostava de jogos de vídeo games...Ele agora pode ter o que quiser...
- Não, ele não pode ter o que quiser. Aqui temos regras, não damos tudo o que eles pedem, pois deste jeito se tornarão crianças mimadas, que não dão valor ao que ganham. Priorizamos a convivência em família  e quando se ganha algo fora das datas especiais, não são presentes caros, que poderiam sustentar uma família de 4 pessoas por um mês.
- Dinheiro não é problema, é solução. Eu o tenho, e como pai do Greg, tenho o direito de dar a ele o que ele quiser para ser feliz...
- Foi assim que seu pai garantiu o seu afeto Luka?? Lembro-me que você sempre teve tudo e a que isso te levou??? Não basta comprar coisas para ser pai. - ele pareceu considerar minhas palavras e disse:
- Meu filho não vai trilhar o mesmo caminho que eu, Milla, porque ele tem algo que eu não tinha: Uma mãe para mantê-lo com os pés no chão. Porque você não se acalma e vamos conversar direito. Sente-se, você está a ponto de um colapso.- e realmente eu estava ponto de chorar, mas me mantive firme.
- Não quero me sentar, quero você fora da minha casa, preciso levar as crianças para a escola...
- Eu estou aqui e posso te ajudar com isso...
- Pára de querer forçar uma situação que não vai existir Luka. Esta família é minha e não sua. – ele ficou sério e respondeu:
- Eu sei que se você pudesse voltar atrás, jamais eu saberia que o Greg é meu filho, mas agora que sei e ele parece gostar de mim, eu vou estar presente na vida dele, quer você e sua...família gostem ou não. Devemos nos esforçar para conviver bem...- e ele se aproximou rápido e antes que eu reagisse, me agarrou e beijou.
Após alguns segundos de choque, ouvi um barulho do lado de fora, reagi e mordi sua boca, tirando sangue, ele me soltou e eu dei-lhe um empurrão, que o pegou desprevenido, e ele quase caiu:
- Que isso? Está louca?
- Nunca mais ouse encostar um dedo em mim, ou eu mato você, fui clara?
- Costumava ser bom entre nós Milla, e pode voltar a ser, ainda gosto de você...
- Você enlouqueceu? O que tínhamos era uma farsa e caso não tenha notado sou casada e não tenho a menor intenção de deixar meu marido. Deixe-me em paz, pare de mandar flores, presentes e afins, eu não quero ter nada a ver com você, de preferencia nem respirar o mesmo ar que você.
- Está bem, vou me afastar, mas só um pouco para que você possa se organizar e aceitar que eu vou estar por perto.
Bufei e sai da sala, sabia que ele me seguia, chamei as crianças e pedi que se ajeitassem para irmos para a escola. Luka com uma ceno de varinha ajudou Greg a embalar suas coisas, pois ele iria levar seus novos presentes para a escola. Ele se despediu das crianças, e foi embora. Passado algum tempo Iago chegou, e eu me senti tão feliz em vê-lo, que corri para abraça-lo e beija-lo, mas ele foi frio comigo.
Bem, o que eu esperava? Depois o tratamento que dei a ele nestes tempos ruins?
Mas eu sabia que ele ainda me amava tanto quanto eu o amava, e decidi que após deixar meu filho na escola, vou voltar para casa e seguir os conselhos de minhas amigas: já era hora de eu ter meu marido de volta.

13:49 Postado por Anônimo 0 comentários
Das anotações de Ludmilla Karkaroff em Dezembro de 2012

Após o transplante bem sucedido, Greg precisou ficar alguns dias no hospital. Ele se recusava a tocar no assunto sobre Iago não ser o seu pai, falando apenas o necessário conosco. A única pessoa a quem ele tratava da mesma forma, era Ivan. Ambos viviam cochichando e fazendo planos para escolher o cachorro que iria morar em nossa casa.
Iago e eu estávamos um pouco estremecidos um com o outro e trocávamos poucas palavras,e não sabíamos direito como agir. Depois que Greg, foi considerado fora de perigo, Iago precisou viajar com o time, para participar de uma das eliminatórias do Campeonato Europeu de Quadribol, eu fiquei com Greg no hospital e minhas amigas sempre se revezavam comigo. Luka estava internado num quarto do outro lado do corredor, e não recebia visitas, só tinha contato com o pessoal do hospital.
Numa noite, eu o vi andando devagar, pois estava com um tubo de soro no braço e estava acompanhado somente pela enfermeira. Observei que ele fazia estas caminhadas, em horários diferentes ao do meu filho, e dava graças a Merlim por isso. O que menos Greg precisava, era começar a ter muito contato com Luka antes de resolvermos a nossa situação.
Havia chegado a hora de irmos para casa, e a enfermeira estava toda atarefada, pois vários pacientes estavam tendo alta, Luka entre eles. Vina, estava no quarto comigo dando orientações ao Greg, quando vi a enfermeira conversando com o doutor O’Malley e ele dava a ela a receita que seria do Luka. Pedi que Vina ficasse com Greg, pois havia algo que por menos que eu quisesse deveria fazer: tinha que agradecer ao Luka, e fui até o quarto dele.Quando cheguei na porta, ouvi algumas risadas, e até pensei em voltar atrás, mas a porta estava aberta e ele parou de falar quando me viu. A pessoa que estava de costas pra a porta se virou e eu pude ver que era o Max, irmão da Evie, que me cumprimentou rápido e após perguntar sobre Greg e saber que estava tudo bem, disse:
- Luka, vou até a enfermaria pedir uma tradução da letra do médico sobre os remédios e já volto para te levar para casa ok?- Luka acenou e eu entrei no quarto devagar. Respirei fundo e disse tentando ganhar tempo:
- Max e você reataram a amizade?
- Ele nunca deixou de ser meu amigo, até tentou me visitar na prisão, mas eu não queria que ele se prejudicasse na Academia de Aurores por ser amigo de um condenado, então me afastei, mas quando saí, ele me procurou e estamos bem. – assenti devagar e disse:
- Eu vim agradecer o seu gesto com o meu filho...Você está bem? - ele levantou o canto da boca em um meio sorriso e disse:
-Estou bem, e você não precisa agradecer. Não fiz mais do que a minha obrigação...De pai.
- Por favor, Luka não comece...- falei tensa e ele ergueu a mão para pedir silêncio, e instintivamente me encolhi, ele me olhou sem graça, dizendo:
- Karkaroff já me agradeceu, e eu sinceramente quero que Gregory fique bem. Eu estou cansado e preciso ir para casa. – começou a sair porta afora mas se virou quando estava ao meu lado e disse:
- Talvez um dia, apesar de tudo, eu possa te provar que não sou um monstro. Todos merecem uma segunda chance para consertar seus erros. - e foi embora, fiquei alguns segundos paralisada tentando não ver mais do que devia na frase de Luka.

-o-o-o-o-o-o-o-

O Natal havia passado e Greg ja conversava conosco de forma normal, porém as coisas estavam diferentes agora. Tentávamos ser uma família normal, mas a confiança que meu filho tinha em mim estava abalada e eu não sabia mais o que fazer, para reconquista-lo. Eu e Iago optamos por contar a verdade a Ivan, que após saber de tudo, não mudou o comportamento com o irmão e nem com o pai, e quanto a mim, passou a ser mais carinhoso, talvez fosse para compensar a frieza que eu via nos olhos de meu filho mais velho, que desde que saiu do hospital, havia começado a ter crises de mau humor, que me lembravam de Luka quando tinha a mesma idade, e nós esperávamos que isso fosse apenas uma fase, e nos enchíamos de paciência. Eu não imaginava que criar adolescentes fosse tão difícil...
Meu irmão após um pedido de Luka, conversou com sua filha Elena sobre a possibilidade de conhecer o irmão de sua mãe, Irina e após ela concordar, ele a levou para conhecer ao Luka. Depois da visita, quando perguntei a ela o que hava achado de conhecer o tio e ela deu de ombros, não insisti mais no assunto. Acho que apesar de minha sobrinha ter a aparência da mãe, havia herdado o senso analítico do pai e não se impressionaria com futilidades. Ponto a menos para o Luka.

o-o-o-o-

- Você vai viajar novamente? Parece que esqueceu que sua casa é aqui. – disse para Iago, quando o vi jogando algumas coisas numa bolsa de viagens e ele respondeu seco:
- Ty organizou um amistoso para arrecadar fundos para o hospital St. Patrick, eu lhe disse que iria ficar fora alguns dias. E não! Eu não me esqueci que esta é a minha casa, embora não me lembre direito do caminho até você. Você se afastou e eu apenas respeitei a sua vontade. Volto antes de Greg ir para Durmstrang.- e saiu do quarto me deixando com uma enorme sensação de vazio.

o-o-o-o-o-o-

Após dois dias, acordei com Ivan me cutucando na cama:
- Mamãe, acorda! Mamãe...
- Humm, que foi Ivan, teve pesadelos novamente??- perguntei bocejando, e ele disse:
- Não foi isso, é só que o Greg não está na cama dele...- joguei as cobertas para o lado e nem me preocupei em pisar no chão frio. Corri até o quarto de Greg e sua cama estava vazia, e nem havia sido mexida. Olhei no armário e sua mochila favorita, havia sumido, junto com algumas roupas. Chamei a mãe de Iago e pedi que ela olhasse o resto da casa, enquanto voltava para meu quarto e vestia roupas por cima do meu pijama.
- O que foi que ele te contou Ivan? Ele disse aonde ia?
- Ele não falou nada comigo...Nós ficamos brincando como sempre e depois fomos dormir...
- Mãe ele não vai ficar doente novamente não é? - e vi o quanto Ivan estava com medo pelo irmão. - forcei-me a ficar calma.
- Claro que não, meu anjo. Você conhece o Greg. Deve estar nos pregando alguma peça e quando aparecer vai rir muito por ter nos assustado. – quando minha sogra disse que ele não estava na casa, comecei a me desesperar, mas não podia ficar parada.
Mandei meu patrono para Iago e comecei a procurar Greg pela vizinhança. Afinal ele não poderia ter ido muito longe, principalmente porque havia nevado durante a noite, e para alguém que passou por uma cirurgia tão séria quanto ele, o clima na Bulgária não ajudava muito. Ele não podia ficar doente.
Torci que Greg estivesse em algum lugar aquecido, peguei meu celular e aparatei até a casa de meus pais e de meu irmão, e eles não o haviam visto, mas iriam procura-lo também, eu estava a caminho da casa de Annia, quando meu celular tocou, e era um numero desconhecido.
- Milla, sou eu...- reconheci a voz e disse:
- O que você quer Luka, estou muito ocupada agora...
-Acho que você deve estar procurando o Gregory, ele está aqui na minha casa e se vo....- não deixei ele terminar de falar.
- Não o deixe sair daí, estou indo busca-lo.
Quando cheguei na casa dele, não bati, fui entrando direto e chamava por meu filho. Luka me encontrou no meio do hall e disse:
- Fica calma Milla, o garoto está dormindo...
- Ele não tem que estar dormindo, ele tem que estar na casa dele.- e fui abrindo as portas dos quartos, enquanto Luka me seguia.
Encontrei Greg deitado no quarto que havia sido do Luka, quando garoto. Ele acordou e me olhou sonolento:
- Oi mãe, o que você faz aqui?
- Vim te buscar e nós vamos conversar muito sério em casa, Gregory Karkaroff..
- Não, eu não vou, acabei de dormir...
- Claro que você vai, eu avisei ao seu pai que você havia sumido e ele já deve estar a caminho...
- Eu já estou com o meu...O Luka disse que posso ficar aqui, o quanto eu quiser e eu quero conhece-lo melhor...- Greg disse presunçoso, mas o olhar que eu dei a ele o fez vacilar e ele olhou pedindo ajuda ao Luka e ele não se fez de rogado ao bancar o ‘adulto legal’ e disse sorrindo:
- Claro que você pode ficar aqui o quanto quiser, minha casa está sempre aberta para os amigos, ainda mais a família...- virei-me zangada para Luka:
- Você o incentivou a fugir de casa? Não sabe que ele não pode pegar um resfriado por pelo menos 3 meses, ou o transplante terá sido em vão? Tem noção do que é acordar e descobrir que seu filho sumiu?
- Não, eu não o incentivei a fugir de casa, e quando ele chegou aqui, o coloquei em repouso e liguei para o doutor O’Malley e ele me disse para mante-lo aquecido e observar se tinha febre ou não. Fiz o que ele mandou e Greg esta bem, isso é o que importa no momento. E eu iria leva-lo para sua casa, foi por isso que liguei... Eu o recriminei por vir aqui sem avisa-la Milla, sabia que isso te deixaria preocupada.- e ele e meu filho trocaram olhares e vi Greg ficar vermelho.- respirei fundo para me acalmar e perguntei:
- Há quanto tempo ele está aqui?
- Umas seis horas, ele está alimentado e bem. Se você quiser, eu conecto a minha lareira com a sua casa, e você não precisará aparatar com ele. – e Greg resmungou:
- Mas eu não quero ir embora agora, e mamãe não pode me obrigar, ela é só uma mulher...- fui responder, mas Luka foi mais rápido e disse firme:
- Gregory obedeça a sua mãe! Não seja desrespeitoso com ela, nunca, você me ouviu? Quando ela o autorizar você poderá vir me visitar.- Greg não esperava aquilo e se levantou com muita má vontade.

Luka interligou nossas lareiras e meu filho deu um aceno frio a Luka, disse o endereço de nossa casa e logo as chamas verde esmeralda o tragavam. Quando fui entrar na lareira, Luka disse:
- Quer você goste ou não, ele vai fugir novamente para vir até a mim...O chamado do sangue é forte.
- Não Luka, não é. Amor é o laço mais forte que existe e você mais do que ninguém deveria saber disso. - entrei na lareira e não olhei para trás enquanto ia para casa.

Luka ficou olhando até as chamas verde esmeralda se extinguirem e disse:
- Eu sei o quanto o amor pode ser forte, ainda o sinto por você e farei tudo para ter você de volta, Milla. Até mesmo bancar o papai preocupado.- e lacrou a lareira com um feitiço protetor.

13:47 Postado por Evie/Micah 3 comentários
Nova York, Novembro de 2002.

Estávamos assistindo a nossa última aula teórica de Vigilância e Rastreamento antes do feriado de Ação de Graças e estava tão focado em chegar em casa e arrumar as malas para viajar para Boston que não conseguia prestar atenção. Um ano já havia se passado desde que descobri que tinha outra família e as coisas estavam bem diferentes.

Pelo menos uma vez por mês eu aparatava na casa dos meus avós, para passar o fim de semana, e Michael e Andrea sempre levavam Connor até lá para passar o maior tempo possível com os tantos primos que ganhamos. Ele já estava muito bem enturmado com Boston, Byron e Casey, que tinham idades próximas.

Não demorou muito para descobrir que minha família inteira era fascinada por esportes e nós passamos por uma verdadeira lavagem cerebral, até que finalmente eles conseguiram converter Connor e eu a dois fãs fiéis dos Boston Red Sox e New England Patriots, mas tiveram zero sucesso em nos fazer torcer pelos Celtics. Ninguém substitui os Lakers e agora sempre que tem jogo dos dois times, a casa vira um campo de batalha.

Era o segundo feriado de Ação de Graças que passaríamos lá, e dessa vez além de Evie, Michael, Andrea e Wes, também se juntariam a mesa Shannon, Dario e Georgia. Estava ansioso para chegar lá e rever todo mundo e quando ouvi o sinal tocar fui o primeiro a levantar, mas a voz grave do professor me chamou a atenção e parei com a mochila a meio caminho do ombro.

‘Não saiam ainda, tenho um aviso importante’ E todos sentaram sem contestar ‘Como todos estão cientes, esse é o ano da formatura. Aqui na Academia de Aurores de NY, para se formar, os alunos precisam fazer um trabalho, que chamamos de Projeto de Conclusão de Curso’ Ele saiu de trás da mesa e circulou pelas carteiras, distribuindo um guia de bolso ‘O objetivo do trabalho é mostrar os benefícios que a Academia pode trazer. Nesse guia vocês encontrarão todas as regras do projeto, o que podem e não podem fazer, e mais importante, o que devem e o que não devem fazer. Vocês devem se dividir em grupos de 3 ou 4 pessoas, e devem fazer o acompanhamento do projeto comigo. A apresentação deverá ser em Maio. Bom feriado para todos e boa sorte’

‘Vamos fazer juntos, certo?’ Eric perguntou enquanto saiamos da sala junto com o resto da turma e Shannon, Rachel e eu assentimos ‘Ótimo, então vamos tentar pensar em algo durante o feriado e segunda-feira a gente se reúne pra ver se alguma idéia pode ser aproveitada. Bom feriado pra vocês’

Eric se despediu e desapatarou, seguido por Rachel, ambos iam para a casa de seus pais. Voltei com Shannon às pressas para casa e já estávamos todos nos esperando de mochilas prontas. Era mais um dia de Ação de Graças na casa dos Walker.

ºººººº

O feriado não poderia ter sido melhor, mas passou rápido demais. Quando comecei a relaxar, me vi de volta a Nova York sem nenhuma idéia para o projeto da Academia. Fui para a aula com Shannon na segunda-feira tentando pensar em alguma coisa no caminho, mas sem sucesso. Eric e Rachel já estavam no refeitório tomando café quando chegamos e pelas expressões ansiosas, tinham algo sobre o projeto para apresentar.

‘Desculpa gente, mas não consegui pensar em nada, me distrai demais’ Já me desculpei enquanto sentava à mesa com eles.

‘Pela cara da Shan, ela também não pensou em nada’ Eric falou rindo ‘Somos três então’

‘Bom, para a sorte de vocês, minha família não é nada divertida e tive bastante tempo livre para pensar no projeto’ Rachel tirou uma pasta da mochila e jogou em cima da mesa ‘Não pensei em um nome ainda, mas a idéia é a seguinte: nós vamos rastrear adolescentes bruxos em reformatórios, que não tenham uma educação mágica como deveriam ter, e dar isso a eles aqui, na Academia’

‘Como exatamente faríamos isso?’ Perguntei interessado ‘Seriam só os problemáticos?’

‘A idéia é focarmos os mais problemáticos, os que julgam “caso perdido”, e reverter isso’ Rachel explicou tirando um papel de dentro da pasta e nos entregando ‘Já foi comprovado que atividades esportivas incentivam as crianças a sair das ruas e crescer na vida, então tudo que temos que fazer é provar que a Academia de Aurores pode fazer o mesmo’

‘Sabe que isso pode dar certo?’ Shannon leu rápido o papel que tinha na mão e sorriu animada ‘Quantas crianças e adolescentes bruxos devem ter espalhados por ai, em orfanatos, sem ter idéia do que realmente são?’

‘Bom, eu adorei a idéia e por mim, fazemos isso mesmo’ Eric apoiou e assentimos de imediato ‘Fechado então, vamos botar esse projeto em pratica!’

ºººººº

Depois de uma semana, onde definimos metas para o projeto, organizarmos todas as idéias e apresentamos ao nosso coordenador, recebemos sinal verde para dar continuidade a ele e começamos nossa busca por uma assistente social que pudesse ajudar na parte onde teríamos que conseguir uma autorização para trabalhar dentro de um reformatório, com adolescentes problemáticos.

A busca foi mais fácil do que pensávamos. Demos a sorte de encontrarmos Sandra, uma aluna do ultimo período de Assistência Social da NYU precisando desesperadamente de alguém que a ajudasse em um projeto complicado de localização de crianças bruxas perdidas em orfanatos trouxas, para dar a elas um lar apropriado. Ela nos contou do projeto temendo nossa reação a menção de bruxos, mas ficou aliviada ao ver que tinha contado para as pessoas certas. Unimos forças e enquanto ela nos ajudaria nas negociações com o reformatório, nós a ajudaríamos a identificar as crianças e achar famílias para elas.

Havíamos escolhido o reformatório bruxo Sunnyvale para trabalhar. Foi preciso uma conversa demorada com o diretor, sempre com a ajuda de Sandra, mas ele nos autorizou a fazer uma experiência com apenas 3 garotos. Se em duas semanas o programa desse resultado, ele nos autorizaria a trabalhar com quantas quiséssemos. Não era uma tarefa fácil, selecionar apenas 3 adolescentes dentre as centenas que moravam no reformatório, e isso estava tirando meu sono. Precisávamos entregar os nomes no dia seguinte e continuava sentado no chão do quarto, com fichas espalhadas ao meu redor, sem ter chegado a uma conclusão.

‘Micah?’ Evie acordou quando derrubei umas das pastas e fez barulho ‘Por que ainda está acordado? São 2 da manhã’

‘Preciso escolher 3 garotos e não consigo me decidir, não consigo dormir’

‘Escolha qualquer um, faz diferença?’ Ela bocejou e deitou outra vez ‘Só venha dormir logo e apague esse abajur’

‘Claro que faz diferença! Não posso simplesmente sortear um, esses garotos precisam de ajuda e não posso brincar com coisa seria!’ Me exaltei um pouco, mas logo me arrependi ‘Desculpe, estou cansado, mas já vou dormir’

‘O que aconteceu?’ Ela levantou outra vez, e seu tom de voz era de quando não ia desistir enquanto eu não falasse ‘Desde que começaram a trabalhar nesse projeto, você está estranho. Por que é tão importante escolher os garotos certos?’

‘Você não entende o que esses garotos e garotas passam lá... Se eles não tiverem uma válvula de escape, algo melhor com que contar, quando completarem a maioridade e saírem...’

‘Me explique então, se eu não entendo. O que eles passam lá? Como sabe tanto sobre isso?’ Ela fez sinal para me sentar ao lado dela na cama e deixei as pastas de lado, indo até ela.

‘Eu sei o que acontece porque já estive em um reformatório’ Falei de cabeça baixa e mesmo sem estar olhando pro seu rosto, sabia que ela tinha reagido espantada, pois imediatamente passou a mão em meu pescoço ‘Foi logo depois que minha avó morreu’

‘Por que você foi mandado pra um reformatório? Você já não estudava na escola de magia quando ela morreu?’

‘Sim, mas eu não reagi muito bem quando soube da morte dela, causei alguns problemas quando soube que seria mandado para um orfanato com Connor’ Continuava de cabeça baixa enquanto falava ‘Não aceitava a morte dela, me rebelei contra o único tio ainda vivo porque ele não quis nos acolher e fiz muita besteira’

‘Que tipo de problemas você pode ter causado sozinho, para te mandarem pra lá?’ Ela perguntou já sabendo parte da resposta.

‘Não estava sozinho, Josh ficou do meu lado o tempo todo, ajudando nos estragos. O mais leve foram algumas pichações no muro do Ministério da Magia da Califórnia, mas foi a gota d’água, pois fomos presos por isso’ Ri um pouco, mas mais de nervoso do que de divertimento ‘Josh, como sempre, escapou da punição, mas eu não tinha mais quem me defendesse e fui mandado para um reformatório bruxo, Coyote Falls. Aquele lugar era uma prisão, horrível. Passei um ano lá, e foi o pior ano da minha vida’

‘O que acontece lá?’ Evie agora segurava minhas mãos ‘O que fizeram com você?’

‘Tudo de ruim que você possa imaginar, não ficávamos um único dia sem levar um surra dos guardas. Se você não dá um motivo, eles arrumam um. Tinha um professor que ensinava feitiços, que nos fazia esticar os braços para ele bater com uma regra de madeira pesada. A marca não saia por dias’ Olhei para ela pela primeira vez desde que comecei a falar ‘O que fazem com as pessoas nesses lugares é desumano. Até onde sei, esses garotos podem sair de lá para serem os próximos Voldemortes, motivos não lhe faltam. Precisamos dar a eles outro motivo pelo qual aguentar o tempo que precisam ficar lá. Elas precisam saber que não existe só o caminho que é ensinado na base da força lá dentro, aqui fora. Eu tive a sorte de sair de lá e ter amigos com quem contar, mas a maioria não tem ninguém’

‘Por que você nunca contou que já esteve num lugar como esse?’

‘Não é um assunto que gosto de trazer a tona’ Forcei um sorriso e ela me beijou, encostando a cabeça em meu ombro ‘Não se preocupe, nunca sofri nenhum tipo de abuso, além de surras mesmo. Continuo virgem nesse aspecto, e vou morrer assim’

‘Não tem graça’

‘Preciso rir dessas coisas, meu amor. Humor foi o que me fez sobreviver a isso tudo, é minha válvula de escape’ Beijei ela outra vez e levantei da cama ‘Preciso escolher os garotos certos, o programa precisa dar resultado’

‘Bom, então me deixe ajudar, duas cabeças pensam melhor que uma’ Ela levantou da cama e estendi a mão.

Passamos a madrugada em claro, lendo e relendo as fichas que foram entregues a mim, e o dia já começava a clarear quando finalmente tínhamos decidido por três garotos para darmos inicio ao trabalho. Os três tinham 15 anos, nenhuma família a quem recorrer, e eram constantemente enviados para a solitária por tentarem fugir. Eram os garotos perfeitos para trabalhar, pois eu tinha certeza que obteríamos os resultados esperados. O que eu pudesse fazer para ajudar esses garotos, eu faria.