Maio de 2004

Sempre soube, desde o dia em que tive minha primeira aula em Juilliard, que meu último ano aqui seria difícil. O que eu não imaginava é que não seria apenas difícil, mas sim uma verdadeira provação. Foram os doze meses mais longos da minha vida.

Em setembro de 2003, por recomendação da minha orientadora, havia começado a dar aulas de dança para as turmas preparatórias de Juilliard. Era uma forma de aumentar minha experiência e embora fosse muito bom poder treinar os aspirantes a alunos da academia, era extremamente desgastante. O pouco tem que tinha livre era reservado a elaborar coreografias e ensaiar as turmas.

No fim daquele ano tivemos uma grata surpresa. Ivo, o pai de Dario, apareceu em nossa casa pedindo perdão ao filho por tudo que havia feito e dito quando ele mais precisava do apoio dos pais e pedindo que ele estivesse presente na comemoração das bodas de prata dele e da esposa em Paris. Dario a principio ficou arredio, mas acabou cedendo. Ele nunca ia admitir, mas sentia muita falta dos pais e faltava muito pouco para que ele mesmo desse o braço a torcer e tentasse uma reconciliação.

Janeiro de 2004 foi o mês mais difícil. Como complemento do curso da academia de auror, do qual já haviam se formado, Micah e Shannon precisavam passar por um treinamento com duração de cinco meses na base de treinamento do FBI. O problema é que o treinamento era uma espécie de confinamento, eles não podiam sair da base em momento algum, e ficava em Quântico, na Virginia. Eu não queria que ele fosse, mas sabia que aquilo não era uma opção, então nos despedimos no dia 5 de janeiro daquele ano sabendo que só nos veríamos outra vez em maio.

Foram longos cinco meses. Sozinhos em Nova York e cada vez mais cansados da carga intensa de Juilliard, Georgia, Dario e eu nos vimos tendo uma crise de saudades de casa. Dario sentia cada vez mais falta de Paris e Georgia e eu choramingávamos quase todo dia por estarmos tão longe da família. Para amenizar um pouco a saudade, todos os dias tomávamos café em uma padaria francesa que tinha no bairro antes de ir para a academia e batíamos ponto em um pub búlgaro que descobrimos no Soho chamado Santa Sofia nos finais de semana.

Maio finalmente chegou ao fim e em uma manhã ensolarada de sábado, me encontrava sentada junto dos meus amigos nas cadeiras montadas em um gramado para assistirmos a cerimonia de formatura de Micah e Shannon em Virginia. Suas famílias estavam sentadas mais à frente e embora a avó de Micah tenha insistido que me sentasse com eles, preferi ficar na companhia dos amigos.

A cerimonia foi muito bonita e cheia de pompas. Todos os formandos estavam fardados e se mantiveram em posição de sentido durante todo o tempo, não importava o quão quente o dia estava. O sol batia no rosto deles, mas ninguém sequer piscava. Quando a cerimonia acabou, o Tenente que a conduzia os mandou “descansar” e todos abandonaram a postura rígida, agitando as boinas no ar. Eram todos oficialmente Agentes Probatórios do FBI.

Queria correr até Micah no instante em que ele pisou fora do palco com os outros alunos, mas me contive quando sua família quase o engoliu em abraços. Eles batiam em suas costas, bagunçavam seu cabelo e sua mãe e avó beijavam seu rosto orgulhosas, mas ele parecia desesperado para se livrar do abraço coletivo. Quando ele me encontrou na parte de trás do gramado, imediatamente começou a se desvencilhar dos parentes que buscavam sua atenção.

- Coiote, parabéns! – Ty deu um tapa tão forte em suas costas que achei que ele fosse cair no chão.
- Bonita cerimonia, mas estavam apostando que você ia secar o suor que estava escorrendo da sua testa – Milla completou rindo – Sem graça, fez todo mundo perder.
- Galera, também estou muito feliz em ver vocês e obrigado por terem vindo, mas depois conversamos, ok? – ele falou já me segurando pela cintura e me empurrando para longe do grupo.
- Sobramos, gente – ouvi Iago falar enquanto todo mundo ria – Vamos procurar uma sombra, isso vai demorar.
- Estava com saudades...
- Isso também pode esperar – Micah me interrompeu depressa e me beijou.

No instante que ele me beijou, achei que não ia conseguir me controlar e acabar fazendo alguma bobagem em publico. Cinco meses sem nem ao menos ouvir sua voz, não conseguia nem medir o tamanho da saudade que havia sentido dele. Quando interrompamos o beijo, ficamos em silêncio por um tempo com as testas juntas. Não precisava dizer nada, apenas poder tocar nele outra vez já era o suficiente.

- Prometo que nunca mais faço nenhum treinamento que me afaste de você por mais que uma semana – Micah finalmente falou e sua voz falhou. Ainda estávamos ofegantes.
- Acho bom, porque não sei se espero você por tanto tempo assim outra vez.
- Mentirosa, você vai sempre me esperar.
- Verdade. Ainda assim, uma semana é o limite.
- Combinado. Quer ir embora daqui?
- Por mais que queira ficar sozinha com você, não podemos fugir da comemoração. Nossos amigos entenderiam e até iam apoiar, mas sua família vai ficar chateada.
- Odeio quando a sua racionalidade estraga meus planos.
- Também amo você – disse rindo e ele me puxou para outro beijo intenso antes de voltarmos para perto dos outros.

Logo que deixamos a área da cerimonia fomos para o aeroporto. E como a comemoração seria na casa dos avós de Micah, o voo não era para NY, e sim para Boston. Foi uma comemoração longa. Não que não tenha sido divertida, principalmente porque todos os nossos amigos também estavam lá, mas eu não via a hora de ir para casa e ficar sozinha com Micah pela primeira vez em cinco meses, então não conseguia tirar os olhos do relógio. Foi Dario quem salvou o dia, levantando de repente perto das 22h e anunciando que ia embora. Georgia levantou também e Micah aproveitou a deixa.

- É, acho que vamos também, já está tarde – disse estendendo a mão na minha direção.
- Vocês vão pegar estrada essa hora? – a mãe dele se apressou em dizer – Não acho seguro, por que não passam a noite?
- Não vamos de carro, são menos de 400 km, podemos aparatar – Georgia explicou.
- Preciso descansar, gente. Não sei o que é uma noite completa de sono desde janeiro, estou com saudades da minha cama e não abro mão de dormir nela hoje.
- Dormir, sei... – a avó dele falou e a sala se dividiu entre gargalhadas e expressões chocadas.
- Mamãe! – a tia mais velha de Micah, Lauren, olhava para a mão horrorizada.
- Fiquei temporariamente surdo – Jonathan, o tio, declarou e agora todo mundo ria.
- Dormindo ou não, vamos embora – Micah disse rindo e virou para a nossa turma também já levantando para ir embora – Pessoal, a gente se vê de novo em uma semana em Orlando?
- Não seu imbecil, nos vemos segunda na formatura da galerinha de Juilliard, e depois vamos para Orlando – Ty respondeu delicado como sempre.
- Também estamos indo para NY, mas não se preocupe, estamos todos em um hotel – Annia se apressou em emendar – Ninguém vai atrapalhar vocês hoje.
- Ok, chega desse papo, já basta a mamãe! – Lauren exclamou do sofá – Vão embora logo!

Conseguimos deixar a casa dez minutos depois. Aparatamos todos no Brooklin, nos fundos da nossa casa, e dali cada um seguiu o seu caminho. Shannon já havia seguido para Los Angeles com a sua família e Chris depois da cerimonia, então eram somente Dario e Georgia em casa, mas eles não entraram com a gente.

- Não estávamos dispostos a ouvir demais, então nos demos ao luxo de reservar uma suíte no Ritz por uma noite – Dario sorriu – Aproveitem. E não destruam a casa.
- Bom, já que insistem em nos deixar sozinhos... – Micah abriu a porta e fez uma reverencia para eu passar.
- Espero que não esteja muito cansado – disse agarrando-o pelo colarinho e o beijando enquanto ele empurrava a porta com o pé.
- Pra isso? Nunca.

Ele me puxou pra cima dele e me pendurei em seu pescoço, enroscando minhas pernas em sua cintura e deixando que ele me carregasse até o quarto. Se todos saíram para nos dar privacidade, então faríamos bom proveito dela.

°°°°°°°°°°

Minha formatura em Juilliard aconteceu dois dias depois, em uma segunda-feira não muito bonita. O céu de Nova York estava muito cinza, mas sem sinal de chuva. Um típico dia na cidade. E assim como na de Micah, toda a minha família estava presente para ver Dario e eu recebendo nossos diplomas.

A comemoração foi no novo apartamento de Vivian, em Manhattan, que agora era grande o suficiente para acomodar toda aquela gente. A festa foi tão longa e divertida quanto a de Boston, mas dessa vez quem estava ansioso para ir embora era Micah. Ele passou a maior parte da tarde tentando se distrair com os planos para as próximas duas semanas, tentando organizar com Ty uma programação que não fosse cansativa demais para Jolie, que estava grávida de cinco meses, e nem para os gêmeos de Annia e John, que tinham dois anos, e os filhos de Milla que estavam com três e dois anos. Seria uma viagem light.

- Chegaram a um acordo? – perguntei quando ele veio me encontrar na varanda.
- Sim, temos uma programação. Foi muito difícil todos conseguirem conciliar essas duas semanas, tem que dar tudo certo.
- Vai dar tudo certo, relaxa – disse deslizando os braços em volta de sua cintura e o beijando – E mesmo que chova todos os dias e a gente acabe preso dentro do hotel, com esse grupo não tem como não se divertir.
- Isso é uma verdade. Falta muito para irmos embora?
- Micah, não posso abandonar minha própria festa. Aguentei até 22h na sua.
- Eu sei, é que estou ansioso para dar o seu presente de formatura. Está lá em casa – olhei para ele desconfiada e ele riu – Não isso.
- O que você comprou?
- Obvio que não vou dizer.
- Isso não é justo – disse emburrada e ele riu mais – Deixe-me ver que horas consigo sair.

Conseguimos fugir uma hora depois, mas também já passava das 20h e era uma segunda-feira, não era todo mundo que havia conseguido duas semanas de férias para estender mais a festa.  Georgia e Dario voltaram conosco dessa vez e como Shannon estava com Chris, Georgia estava temporariamente desabrigada e teria que dormir com Dario. Despedimo-nos ainda na entrada e cada um foi pro seu quarto.

Estava tão curiosa para saber o que Micah havia comprado que subi as escadas em uma velocidade acima do normal. Quando abri a porta e olhei para a cama, perdi a habilidade de respirar por alguns segundos. No meio dela estava uma caixinha de veludo em cima de uma almofada. A caixa estava aberta e tinha um anel dentro. Olhei para Micah sem saber o que dizer e ele pegou a caixa da cama, se ajoelhando na minha frente.

- Você me faz mais feliz do que eu jamais pensei que pudesse ser – disse pegando minha mão, que já estava tremendo – E se você deixar, prometo passar o resto da minha vida tentando fazer você se sentir do mesmo jeito.
- Você já me faz feliz.
- Casa comigo?
- Preciso mesmo responder isso?
- Gostaria de ouvir uma resposta.
- Sim, claro que sim – ele abriu um sorriso e levantou, colocando o anel em meu dedo – Quando você teve tempo pra isso? Desde que voltou não saiu do meu lado.
- Estou com ele no bolso desde dezembro. Logo que consegui acesso à poupança que minha avó deixou, aquela que eu só poderia mexer quando completasse 21 anos, percebi que finalmente tinha o suficiente para começar uma vida de verdade com você.
- Você não me contou essa parte. Disse apenas que era uma boa poupança.
- Eu sei, mas queria fazer tudo certo, então primeiro fui até seu avô e pedi sua permissão para casar com você. Conversei com ele antes de ir para Quântico, queria que ele soubesse que agora eu posso cuidar de você sem que ele se preocupe, que finalmente posso lhe dar tudo que você precisa. E que faria isso assim que nós dois nos formássemos.
- Eu já tenho tudo que preciso – segurei seu rosto e o beijei, encostando a testa na dele – Eu só preciso de você.
- E uma festa épica.
- É, uma festa não seria ruim.
- E uma casa grande, com um sótão onde Dario moraria até morrer.
- Ele vai morar conosco pra sempre, não é mesmo? – perguntei rindo.
- Provavelmente, mas isso é bom, assim teremos uma babá de graça.
- Babá para os nossos filhos, claro – ele assentiu – Quantos filhos vamos ter?
- Quatro – ele respondeu de imediato – Um menino, duas meninas gêmeas e outro menino.
- Isso é muito filho.
- Nós damos conta, já temos uma ótima babá. Claro que também vamos morar em uma rua tranquila, onde as crianças poderão brincar na rua sem nos preocuparmos.
- No Brooklin não tem como não se preocupar.
- Não, nós vamos ter que nos mudar para o subúrbio. Uma casa com quintal grande, assim nossos cachorros estabanados terão espaço para correr e podem parar de mastigar nossos móveis.
- Você pensou bastante nisso.
- Cinco meses com esse anel no bolso, meu amor. Tenho a nossa vida toda planejada. Viu como você precisa de mais coisas além do meu corpo?

Micah sorriu e me beijou, segurando firme em minha cintura e me erguendo do chão alguns centímetros. Sabia que mesmo depois de tudo que aconteceu para que chegássemos até aqui, era com ele que ele viveria o resto de minha vida. E seriam muito felizes.